Spica (alpha Vir) - estrela | Atlas de Astronomia

Spica

Estrela

Spica é na verdade duas estrelas azuis quentes que orbitam uma a outra tão perto que a gravidade mútua as deforma em elipsoides, e foi observando-a que Hiparco descobriu a precessão dos equinócios há mais de 2.100 anos. Veja onde encontrá-la no céu e a história por trás dela.


AO VIVOSpicaUTC
Altura no ceu
2,47°
Acima do horizonte (visivel agora)
Azimute
258,90°
O
Angulo horario
92,19°
Magnitude aparente
0,97
Visivel a olho nu
Coordenadas (AR / Dec)
201,2982°
Dec -11,1613°
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Sobre Spica

Spica brilha como a estrela mais luminosa da constelação de Virgem (Virgo) e a décima quinta mais brilhante do céu noturno, com um brilho azul-esbranquiçado característico. O que os olhos não revelam é que ela é na verdade um sistema binário espectroscópico: duas estrelas massivas de classe B tão próximas entre si que completam uma órbita mútua em apenas cerca de 4 dias. A separação entre elas é de apenas 18 milhões de quilômetros, menos de um quinto da distância Terra-Sol, tão pequena que a gravidade de cada uma deforma a outra em elipsoide. Juntas, estão a cerca de 260 anos-luz da Terra.

Em julho de 2024, a Lua ocultou Spica numa ocultação lunar visível de partes do Brasil, revelando por alguns segundos a posição precisa da estrela contra o disco lunar e permitindo medidas astrométricas de alta precisão do evento. Esse tipo de ocultação também permite, em condições ideais, separar brevemente a luz das duas componentes do sistema.

Como encontrar no céu

O caminho mais famoso para Spica é o arco do Carro (da Ursa Maior) para Arcturus e depois para Spica, em inglês chamado de "Arc to Arcturus, spike to Spica." Partindo da curva da Cauda da Ursa Maior, siga o arco por uns 30 graus até chegar a Arcturus (laranja brilhante), depois continue o mesmo arco por mais uns 30 graus e você chega em Spica (azulada). No Brasil, Spica é facilmente visível no céu do outono e inverno austral (de março a agosto), alta o suficiente para observação mesmo em cidades. Ela fica na região do céu onde Virgo se estende, perto da eclíptica, o caminho anual do Sol.

Como Spica fica próxima da eclíptica, ela é frequentemente visitada pela Lua e pelos planetas, criando conjunções vistosas que são possíveis de acompanhar a olho nu. A cor azul-esbranquiçada de Spica contrasta claramente com o alaranjado de Arcturus quando as duas são vistas num campo de binóculo ou numa noite clara.

Características físicas

Ficha de Spica (sistema)
ParâmetroSpica ASpica B
Designação BayerAlpha Virginis
Tipo espectralB1 III-IVB2 V
Magnitude aparente (sistema)+0,97 (média)
Distância~260 anos-luz
ConstelaçãoVirgem (Virgo)
Massa~11 massas solares~7 massas solares
Raio~7,4 raios solares~3,6 raios solares
Temperatura superficial~25.300 K~20.900 K
Período orbital4,01 dias
Separação média~0,12 UA (18 milhões km)

Spica A, a estrela primária, tem massa de cerca de 11 vezes a do Sol e raio de aproximadamente 7,4 raios solares. Sua temperatura superficial é de cerca de 25.300 kelvin, o que a coloca na classe espectral B1 e explica sua cor azul intensa. A luminosidade total é de aproximadamente 12.000 a 12.100 vezes a solar. Spica B, a companheira, tem cerca de 7 massas solares, 3,6 raios solares e temperatura em torno de 20.900 kelvin. A proximidade extrema cria marés gravitacionais que deformam ambas as estrelas em esferóide oblato. Spica é também uma fonte intensa de raios X e ultravioleta, resultado das altas temperaturas e dos ventos estelares das duas componentes.

Sistema estelar e companheiras

Spica é um sistema binário espectroscópico clássico: as duas componentes não podem ser separadas visualmente nem pelos maiores telescópios do mundo. Sua natureza dupla só é revelada pelo desdobramento das linhas espectrais causado pelo efeito Doppler ao longo das órbitas mutuamente circulares, técnica que permite medir com precisão as velocidades radiais de cada componente ao longo do período de 4,01 dias. O sistema é também classificado como variável elipsoidal rotante: a forma oblata das duas estrelas faz com que a área projetada no céu mude ao longo do período orbital, causando uma variação de brilho de pequena amplitude mesmo sem ocultação.

Não há evidências de uma terceira componente no sistema de Spica até o momento. As duas estrelas massivas estão em fase de evolução avançada e, em escalas de tempo de poucos milhões de anos, ambas devem explodir como supernova, possivelmente deixando para trás um par de estrelas de nêutrons ou buracos negros.

  • Tipo de sistema: binário espectroscópico + variável elipsoidal
  • Componentes confirmadas: 2 (Spica A e B)
  • Período orbital: 4,01 dias
  • Separação: ~18 milhões de km (~0,12 UA)
  • Terceira componente: não detectada

Mitologia e cultura

Spica, cujo nome vem do latim spica virginis, "espiga da virgem", representava no mundo antigo a espiga de trigo que a deusa Deméter (Ceres na versão romana) segurava em sua mão. Virgem era frequentemente retratada como a deusa da colheita, e Spica marcava o ponto mais brilhante dessa figura celeste. A estrela tinha importância agrícola e ritual em várias civilizações: no antigo Egito, o templo de Hathor em Dendera teria sido orientado para ela por volta de 700 a.C.

Foi justamente observando Spica que o astrônomo grego Hiparco, por volta de 127 a.C., notou uma discrepância entre sua própria medição da posição da estrela e medições feitas 150 anos antes, o que o levou a descobrir a precessão dos equinócios, um dos maiores feitos da astronomia antiga. Essa descoberta, feita a partir de Spica, mudou para sempre a compreensão humana da relação entre o céu e o tempo.

Importância científica

A importância científica de Spica é múltipla. Como binária espectroscópica com parâmetros bem determinados, ela serve de referência para calibrar modelos de estrutura e evolução de estrelas massivas de classe B. A deformação mareal mensurável de ambas as componentes permite testar modelos de teoria de maré estelar com dados empíricos diretos, algo raro na astronomia observacional.

Spica também é um dos objetos de referência histórica mais importantes da astronomia: o conjunto de observações de Hiparco sobre sua posição resultou na descoberta da precessão dos equinócios no século II a.C., um feito que não tinha precedente na história da ciência. Essa descoberta levou ao refinamento do calendário e a uma nova compreensão da geometria do sistema solar. Em astrometria moderna, Spica é usada como estrela de referência espectroscópica pela precisão com que seu campo magnético e as velocidades radiais de cada componente podem ser medidos ao longo do curto período orbital.

Curiosidades

  • Spica é um sistema binário espectroscópico: as duas estrelas nunca foram resolvidas visualmente nem pelos maiores telescópios; sua natureza dupla só é revelada pelo efeito Doppler nas linhas espectrais ao longo de cada órbita de 4 dias.
  • A deformação mareal de Spica A e B é tão pronunciada que a diferença entre o raio polar e o equatorial de cada estrela é mensurável em modelos físicos, mesmo sem imagem direta.
  • Quando ambas as estrelas explodirem, o que deve ocorrer em escalas de poucos milhões de anos, elas provavelmente produzirão duas supernovas sequenciais, possivelmente deixando para trás duas estrelas de nêutrons ou um par de buracos negros.
  • Em julho de 2024, a Lua ocultou Spica numa ocultação lunar visível de partes do Brasil, permitindo medições astrométricas de alta precisão.
  • Na astrologia ocidental, Spica foi historicamente considerada uma das estrelas fixas de maior benefício, associada à sabedoria, arte e fortuna.
  • A magnitude aparente média de Spica é de cerca de +0,97, mas sua luminosidade combinada real a coloca entre as estrelas mais poderosas dentro de 1.000 anos-luz do Sol.

Coordenadas J2000

Número Hipparcos:HIP 65474
Designação Bayer:alpha Vir
Constelação:Virgem (Vir)
Ascensão Reta (RA):201.298247° (13:25:12)
Declinação (Dec):-11.161319°
Magnitude visual:0.97
Tipo espectral:B1III
Distância:250.0 anos-luz

Cor e pico de emissão (lei de Wien)

Pela classe espectral B1III, Spica tem temperatura efetiva de cerca de 27,970 K. Pela lei de Wien a emissão dela tem pico perto de 104 nm (no ultravioleta), e por isso aparece azul ao olho.

Temperatura efetiva (estimativa)27,970 K
Pico de emissão (Wien)104 nm
Cor típicaazul

Estimativa. Temperatura inferida da classe espectral (escala MK padrão); pico pela lei do deslocamento de Wien, lambda_max = 2,898e6 nm.K / T.

Visível agora?

Em São Paulo (2026-07-26 23:21): altitude 2.5°, azimute 258.9°. Abaixo do horizonte ou muito próximo dele agora.

Em Rio de Janeiro: altitude -0.8°, azimute 257.5°.

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