O modelo: análise harmônica
A altura da maré num instante é a soma de dezenas de oscilações (constituintes), cada uma com sua frequência astronômica própria, mais o nível médio da estação:
h(t) = Z0 + Σi fi · Hi · cos[ (V0i + ui) − gi ]
onde Z0 é o nível médio acima do datum, Hi e gi são a amplitude e a fase do constituinte (constantes harmônicas medidas no porto), V0i é o argumento astronômico de equilíbrio, e fi, ui são as correções nodais. Cada constituinte tem um significado físico: M2 é a maré lunar semidiurna principal (período 12h25), S2 a solar principal (12h), O1 e K1 as diurnas ligadas à declinação lunissolar, e os de águas rasas (M4, MS4, M6) nascem de interações não-lineares em estuários. A partir dessas amplitudes, o número de forma F = (K1 + O1) / (M2 + S2) classifica o regime da estação, com os cortes clássicos em 0,25, 1,5 e 3,0 (semidiurno, misto e diurno); o número foi proposto por van der Stok (1897) e consolidado por Courtier (1938), e os cortes são os hoje tabelados em Pugh & Woodworth (2014, cap. 4).
Argumentos astronômicos
Os argumentos V0 são combinações inteiras (números de Doodson) das longitudes médias da Lua (s), do Sol (h), do perigeu lunar (p), do nó ascendente (N) e do perigeu solar (p′). O OCalTide computa essas longitudes por polinômios de alta ordem (herdados do t_tide/UTide, do Explanatory Supplement to the Astronomical Ephemeris, 1961), garantindo precisão de fração de grau ao longo de décadas.
Correções nodais (ciclo de 18,6 anos)
A órbita lunar precessiona num ciclo de 18,61 anos, modulando a amplitude (f) e a fase (u) de cada constituinte. O OCalTide usa a formulação rigorosa de Schureman (1958), calculando os ângulos auxiliares I (inclinação lunar-equatorial), ξ, ν, ν′, ν″ e as famílias de fator nodal f75, f76, f77, f78, f227, f235, e não as séries truncadas em cos(N) usadas por preditores simplificados. Isso mantém a acurácia constante ao longo de todo o ciclo nodal e é o que permite estender a previsão a qualquer ano sem recalibração (evergreen).
Datum e nível de redução
As alturas são referenciadas ao Nível de Redução (NR) da carta, o termo oficial brasileiro adotado pela Diretoria de Hidrografia e Navegação (DHN) na NORMAM-25 e no manual de Navegação da DHN (cap. 10); no vocabulário internacional equivale ao datum vertical ou chart datum. O NR fica próximo do LAT (a menor baixa-mar astronômica), como nas tábuas oficiais. O Z0 (nível médio acima do datum) vem da estação; quando disponível, usamos o Nível Médio oficial publicado pela autoridade hidrográfica.
Orçamento de incerteza (GUM)
Toda previsão traz uma incerteza declarada, combinada pela raiz da soma dos quadrados das componentes independentes (metodologia GUM), calibrada nas residuais medidas contra tábuas oficiais:
| Componente | Altura (σ) | Tempo (σ) |
|---|---|---|
| Truncamento de constituintes (~30 de 70+) | ~3 cm | ~6 min |
| Constantes harmônicas (análise) | ~2 cm | ~4 min |
| Correção nodal (exato vs linearizado) | ~1 cm | — |
| Argumento astronômico | — | ~1 min |
| Amarração do datum (Z0) | ~5 cm | — |
| Combinada (astronômica) | ~6-7 cm | ~7 min |
Fora do orçamento: o resíduo meteorológico (maré de tempestade, vento, pressão, cheia fluvial) não é astronômico e não entra na previsão harmônica. Como referência física, o efeito de barômetro invertido eleva o nível do mar cerca de 1 cm por hPa de queda de pressão; em tempestades extremas o resíduo pode chegar a metros. Por isso a maré prevista é informativa e não substitui a carta náutica para navegação.
Nota de originalidade. Agências como a NOAA publicam as constantes harmônicas sem uma incerteza associada, e a literatura de maré usa, na prática, uma avaliação estatística (erro formal ou bootstrap dos resíduos) sem o enquadramento formal do GUM. Declarar um orçamento de incerteza completo, no vocabulário do GUM (componentes tipo A e tipo B combinadas com fator de cobertura), junto a cada previsão de maré, é uma prática rara e um dos diferenciais do OCalTide.
Validação contra tábuas oficiais: um ano completo, evento a evento
O OCalTide é validado contra as tábuas de maré oficiais da Marinha do Brasil (CHM), como o JPL Horizons valida a calculadora lunar do site. O benchmark compara todos os 2.941 eventos de preia-mar e baixa-mar de 2026 (365 dias, dois portos) transcritos da tábua oficial, e mede o erro de horário e de altura de cada um. Regra de honestidade: os números de referência vêm da publicação oficial, nunca do próprio motor.
| Porto | Eventos | Erro de horário (mediana / p95 / máx) | Erro de altura (mediana / p95 / máx) |
|---|---|---|---|
| Fortaleza (Mucuripe) | 1.411 | 4,5 / 8,7 / 13,4 min | 1,2 / 3,7 / 5,3 cm |
| Rio de Janeiro (Ilha Fiscal) | 1.530 | 6,2 / 28,9 / 176 min | 2,1 / 6,7 / 13,2 cm |
| Global | 2.941 | 5,0 / 20,3 min | 1,6 / 5,5 cm |
Para referência, o critério de erro aceito pela NOAA para nível d'água em sistemas operacionais é de 15 cm; a mediana do OCalTide fica em 1,6 cm. A cauda do Rio de Janeiro (máximo de ~3 h no horário) tem causa física conhecida: em dias de maré muito fraca (regime micro-mareal misto) a curva fica quase estagnada e o horário do extremo é mal definido (a própria tábua oficial lista até oito estagnações nesses dias). O relatório completo, evento a evento, é gerado por um harness interno de validação (com os dados oficiais transcritos e citados), no mesmo molde do benchmark JPL Horizons da calculadora lunar do site.
Ciências que se encontram na maré
O OCalTide não reinventa a física: aplica ciências consagradas, com os mesmos cálculos astronômicos da calculadora lunar do site.
- Maré terrestre (solid Earth tide). A mesma força que move o oceano deforma a crosta: o solo sobe e desce ~30-40 cm por dia. Calculado pelo potencial gravitacional de grau 2 da Lua e do Sol e o número de Love h₂ = 0,6078 (IERS 2010), a partir das mesmas efemérides de Lua e Sol do site. Ref.: Melchior (1983); Agnew (2015), Earth Tides.
- Densidade da água do mar e combustível. Pela equação de estado EOS-80 (UNESCO 1981), a densidade depende de salinidade e temperatura. Por Arquimedes, água mais densa reduz o calado e o casco molhado, logo o arrasto e o consumo de combustível. É a leitura fisicamente correta da "dureza" da água do mar. Ref.: UNESCO Technical Papers in Marine Science 44; Barrass & Derrett, Ship Stability.
- Marés de rei (perigeias de sizígia), com altura real. As maiores marés do ano ocorrem quando a lua nova ou cheia coincide com o perigeu lunar. O cálculo combina as fases e o perigeu reais da Lua com a previsão harmônica para dar não um aviso genérico, mas a altura prevista do pico naquele porto, já deslocada pela idade da maré (o atraso físico entre o alinhamento e a maior maré). A idade da maré é dada pela fórmula oficial da NOAA, idade (h) = 0,984 · (gS2 − gM2), a partir da diferença de fase entre as constituintes S2 e M2 (NOAA Tide and Current Glossary).
- Desigualdade diurna vs declinação da Lua. A diferença entre as duas preia-mares do dia (desigualdade diurna) é causada pela declinação da Lua. O cálculo compara a declinação instantânea da Lua com a assimetria medida na curva de maré, mostrando a causa astronômica do efeito.
- Envelope nodal: o mesmo ciclo de 18,61 anos, em dois lugares. A oscilação da declinação lunar entre os grandes e pequenos afastamentos (lunar standstill) é o mesmo ciclo que modula as correções nodais e, portanto, o envelope LAT/HAT da maré. Dois cálculos independentes medindo o mesmo relógio celeste.
- Qualquer cidade da costa (com a base de municípios do IBGE). Para qualquer um dos 5.571 municípios (279 defrontantes ao mar), o motor encontra a estação publicada mais próxima, a distância e o rumo, e prevê a maré de hoje lá, com uma nota honesta de proximidade (validade local até 60 km; além disso, indicador de regime).
- Correntes de maré (estofa e corrente máxima). Sem dados de velocidade por porto, o motor entrega o que é fisicamente calculável e mais pedido: o horário da estofa (corrente nula, nos extremos da maré) e da corrente máxima de enchente e vazante (no meio da maré), com a força relativa, pela taxa de variação da altura prevista (regra dos dozes). É estimativa de tempo e força relativa, não velocidade em nós.
- Interconexão. A maré conversa com o Sol (melhor baixa-mar com luz do dia), com a Lua (sizígia, superluas, declinação) e com a base de localização do próprio ecossistema do site. A página "Lua hoje" mostra a maré real na costa mais próxima do visitante.
Cobertura global
Além das estações brasileiras publicadas (com página própria e validação contra a Marinha), o motor hospeda um índice de 3.835 estações maregráficas em 116 países (TICON-4, CC BY 4.0, mesma fonte aberta), de The Battery (Nova York) a Fort Denison (Sydney) e Cascais (Portugal). Para qualquer ponto do planeta, ele localiza a estação mais próxima e prevê a maré ali, com a mesma matemática. Nenhum serviço externo: o índice é servido do próprio site.
Preditor híbrido: testado e documentado
Construímos e avaliamos, de forma honesta e fora da amostra (calibrando na primeira metade do ano e medindo na segunda), um preditor híbrido que usa a posição real da Lua e do Sol (forçamento de equilíbrio por efeméride) para corrigir a previsão harmônica. Resultado: o híbrido melhora o erro de altura em cerca de 0,15 cm na mediana, uma diferença real mas abaixo do próprio orçamento de incerteza (±9 cm). Decisão de engenharia: mantemos o método harmônico como padrão (mais simples e rápido, e cujas constantes já absorvem a resposta do porto) e reservamos a maquinaria de resposta e admitância para o caso em que ela de fato ajuda: estações com registro curto ou pontos sem marégrafo. Transparência total: o teste está no harness de benchmark.
Fontes e referências
- Schureman, P. (1958). Manual of Harmonic Analysis and Prediction of Tides, Special Publication 98, U.S. Coast and Geodetic Survey.
- Foreman, M.G.G. (1977). Manual for Tidal Heights Analysis and Prediction, Pacific Marine Science Report 77-10.
- Pawlowicz, Beardsley & Lentz (2002). T_TIDE, Computers & Geosciences 28.
- Codiga, D.L. (2011). UTide, GSO Technical Report 2011-01.
- IHO (2006). Harmonic Constants Product Specification.
- Constantes harmônicas: TICON-4 (Piccioni et al., DGFI-TUM), licença CC BY 4.0.
- Validação: Tábuas de Maré da Marinha do Brasil (CHM/DHN).
Material acadêmico brasileiro
- Instituto Oceanográfico da USP (IO-USP), Tábuas das Marés (Ubatuba, Santos, Cananéia), publicadas desde 1988: io.usp.br.
- Ribeiro, A.S. (2008). Modelagem hidrodinâmica da Lagoa dos Patos (TELEMAC). FURG, repositorio.furg.br.
- Melo Filho, E. (2017). Maré Meteorológica na Costa Brasileira (ponto anfidrômico perto de Rio Grande). FURG, repositorio.furg.br.
- Borba, T.A.C. (2014). Modelagem da maré no estuário amazônico (malha flexível). UFPA, repositorio.ufpa.br.
- Santos, D.O. (2013). Maré na Baía do Marajó (macromaré). UFPA, repositorio.ufpa.br.
- Assunção, R.V. (2017). Análise harmônica da maré em Fernando de Noronha (T_TIDE, 35 constituintes). UFPE, repositorio.ufpe.br.
Regra de honestidade: os números de referência da validação vêm de tábuas oficiais publicadas, nunca são gerados pelo próprio motor.