Betelgeuse
Estrela
Betelgeuse é uma das estrelas mais fascinantes do céu: um astro tão enorme que, se estivesse no lugar do Sol, engolfaria até a órbita de Júpiter, e um dia vai explodir como supernova sem que a ciência atual consiga prever quando. Veja onde encontrá-la no céu e a história por trás dela.
Sobre Betelgeuse
Brilhando com uma cor laranja-avermelhada inconfundível no ombro direito de Orion, Betelgeuse é uma supergigante vermelha que está entre as maiores estrelas conhecidas na Via Láctea. Seu nome, derivado do árabe medieval Yad al-Jawza ("mão de Orion"), sofreu corrupções ao longo dos séculos até chegar à forma atual. Entre 2019 e 2020, ela surpreendeu o mundo científico ao escurecer de forma dramática, um evento que gerou manchetes globais e acendeu debates sobre se uma supernova estaria iminente. A resposta, como a ciência revelou depois, é mais sutil e igualmente fascinante.
Em julho de 2025, astrônomos anunciaram a detecção direta de uma estrela companheira próxima orbitando Betelgeuse, a primeira vez que um companheiro estelar próximo foi identificado ao redor dessa supergigante vermelha. Isso pode abrir novos caminhos para entender a variabilidade luminosa e os ciclos de ejeção de massa da estrela.
Como encontrar no céu
Betelgeuse é uma das estrelas mais fáceis de identificar no céu. Basta encontrar a constelação de Orion, reconhecida pelos três astros alinhados que formam seu cinto: Alnitak, Alnilam e Mintaka. A partir desse cinto, olhe para cima (para o norte) e você encontra Betelgeuse, a estrela de tom avermelhado-alaranjado no ombro superior. No Hemisfério Sul, quando Orion fica com o cinto orientado horizontalmente no céu norte, Betelgeuse aparece à direita. Ela é uma estrela variável, com brilho que oscila entre a segunda e a décima segunda posição no ranking de estrelas mais brilhantes do céu em seus períodos mais escuros. No Brasil, é visível de outubro a abril.
O contraste de cor entre Betelgeuse (laranja-avermelhada) e Rigel (azul-branca), no lado oposto do cinto de Orion, é um dos contrastes cromáticos mais bonitos do céu a olho nu. Usar binóculo ou um telescópio pequeno amplifica esse contraste de forma impressionante.
Características físicas
| Parâmetro | Valor |
|---|---|
| Designação Bayer | Alpha Orionis |
| Tipo espectral | M1-M2 Ia-Iab |
| Magnitude aparente | 0,0 a +1,3 (variável) |
| Distância | ~700 anos-luz (estimativas: 500-725 a.l.) |
| Constelação | Orion |
| Raio | 700 a 1.000 raios solares |
| Massa | 10 a 20 massas solares |
| Temperatura superficial | ~3.500 K |
| Luminosidade | ~100.000 vezes a solar |
Betelgeuse tem diâmetro estimado entre 700 e 1.000 vezes o do Sol; a incerteza existe porque sua superfície é difusa e irregular, com enormes células de convecção que causam variação no raio aparente. Com uma massa de cerca de 10 a 20 massas solares, ela consumiu seu hidrogênio central e hoje funde hélio e elementos mais pesados. Sua temperatura superficial média é em torno de 3.500 kelvin, bem abaixo dos 5.778 kelvin do Sol, o que explica a cor vermelha-alaranjada. A luminosidade total chega a cerca de 100.000 vezes a solar.
O "Grande Escurecimento" de 2019-2020 reduziu o brilho de Betelgeuse a seu mínimo histórico registrado. Estudos publicados em 2022 na revista Nature concluíram que o evento foi causado por uma ejeção de massa superficial: uma expulsão gigantesca de plasma que esfriou e condensou em poeira ao redor da estrela, bloqueando parte da sua luz. Não houve sinal de colapso ou supernova iminente. Em 2024, pesquisadores identificaram uma nova atenuação menor, de cerca de 0,5%, nos primeiros meses do ano, confirmando a variabilidade contínua da estrela.
Sistema estelar e companheiras
Betelgeuse foi considerada por décadas uma estrela solitária, mas estudos de longo prazo na variabilidade de suas velocidades radiais sugeriam a presença de um ou mais objetos companheiros. Em julho de 2025, astrônomos anunciaram a detecção direta de uma estrela companheira próxima, provisoriamente designada Betelgeuse b, em órbita a uma distância de apenas algumas unidades astronômicas da supergigante. Essa é a primeira detecção direta de um companheiro próximo de Betelgeuse.
Além dessa companheira recentemente confirmada, estudos de longa data indicavam a existência de um período de variabilidade de longo prazo de cerca de 2.200 dias, possivelmente ligado a um companheiro ou a pulsações de ordem mais alta. A nebulosa circunestelar de Betelgeuse, resultado da perda de massa contínua, se estende por vários anos-luz ao redor da estrela. Essa nebulosa é visível em imagens de longa exposição no infravermelho.
- Companheira confirmada (2025): Betelgeuse b (detecção direta)
- Período de variabilidade longo: ~2.200 dias
- Período principal de pulsação: ~400 dias
- Nebulosa circunestelar: detectável em infravermelho
Mitologia e cultura
Orion é uma das constelações mais antigas registradas pela humanidade, e Betelgeuse ocupa lugar central nessa narrativa. Na mitologia grega, Orion era um caçador gigante, filho de Posêidon, morto pela picada de um escorpião, razão pela qual Orion e Escorpião nunca aparecem simultaneamente no céu. Betelgeuse marcava o ombro do caçador. No antigo Egito, algumas interpretações ligam Orion ao deus Osíris, e o cinto de Orion foi usado como referência para alinhar as três grandes pirâmides de Gizé.
Na astronomia árabe medieval, Betelgeuse foi registrada detalhadamente em catálogos como o do astrônomo Al-Sufi no século X. No Japão, a estrela é parte de um asterismo chamado "o tambor" em tradições locais. Povos indígenas da Amazônia também registraram Orion e suas estrelas principais em mitos de criação e calendário agrícola. Entre os Bororo do Brasil Central, o cinto de Orion é associado a uma cobra celeste, figura central na cosmologia do grupo.
Importância científica
Betelgeuse é uma das estrelas mais importantes para o estudo da evolução estelar em fases avançadas. Sua posição no Diagrama de Hertzsprung-Russell como supergigante vermelha de grande massa representa uma etapa de vida curta e violenta antes da explosão em supernova. O estudo de sua variabilidade luminosa, dos ciclos de ejeção de massa e da composição da nebulosa circunestelar fornece dados críticos para calibrar modelos de evolução de estrelas massivas.
O "Grande Escurecimento" de 2019-2020 foi especialmente valioso: a comunidade científica reagiu com campanhas de observação em múltiplos comprimentos de onda que resultaram em dezenas de artigos e forneceram a primeira documentação detalhada de uma ejeção de massa superficial em tempo real. Imagens obtidas pelo Very Large Telescope (VLT) da ESO mostraram assimetrias na superfície da estrela durante o evento, abrindo uma nova janela para o estudo da física de supergigantes vermelhas. A estrela também é alvo de monitoramento contínuo para detecção de neutrinos no momento da supernova futura.
Curiosidades
- Quando Betelgeuse explodir como supernova, ela será visível a olho nu durante semanas ou meses, possivelmente tão brilhante quanto a Lua cheia. Isso pode ocorrer daqui a mil ou cem mil anos: a ciência atual não tem como precisar a data.
- A luz que você vê ao olhar para Betelgeuse partiu dela entre 500 e 725 anos atrás; ela já pode ter explodido, e a notícia ainda não chegou até nós.
- As imagens diretas da superfície de Betelgeuse obtidas pelo VLT mostraram manchas brilhantes de convecção, como uma gigantesca panela fervendo em lentíssimo movimento.
- Em julho de 2025, astrônomos anunciaram a primeira detecção direta de uma estrela companheira próxima orbitando Betelgeuse, abrindo novas questões sobre a evolução do sistema.
- Betelgeuse é uma estrela variável semi-regular com múltiplos períodos de pulsação; o maior deles é de cerca de 400 dias, e há outro de aproximadamente 2.200 dias.
- A supernova de Betelgeuse não representará perigo algum para a Terra: a distância de centenas de anos-luz é mais que suficiente para que qualquer radiação chegue diluída e inofensiva.
Coordenadas J2000
| Número Hipparcos: | HIP 27989 |
| Designação Bayer: | alpha Ori |
| Constelação: | Orion (Ori) |
| Ascensão Reta (RA): | 88.792939° (05:55:10) |
| Declinação (Dec): | 7.407064° |
| Magnitude visual: | 0.50 |
| Tipo espectral: | M2Iab |
| Distância: | 643.0 anos-luz |
Cor e pico de emissão (lei de Wien)
Pela classe espectral M2IAB, Betelgeuse tem temperatura efetiva de cerca de 3,560 K. Pela lei de Wien a emissão dela tem pico perto de 814 nm (no infravermelho próximo), e por isso aparece avermelhada ao olho.
| Temperatura efetiva (estimativa) | 3,560 K |
| Pico de emissão (Wien) | 814 nm |
| Cor típica | avermelhada |
Estimativa. Temperatura inferida da classe espectral (escala MK padrão); pico pela lei do deslocamento de Wien, lambda_max = 2,898e6 nm.K / T.
Visível agora?
Em São Paulo (2026-07-16 13:55): altitude 29.7°, azimute 294.2°. Visível acima do horizonte.
Em Rio de Janeiro: altitude 27.0°, azimute 291.9°.