O que é e quando acontece
A pororoca é uma onda de maré que sobe o rio. Na física das marés ela é uma frente positiva (uma positive surge): a maré enchente empurra uma massa de água mar adentro e, ao encontrar um estuário raso e em forma de funil, essa água se acumula numa frente que avança rio acima, contra a correnteza. O nome vem do tupi e a mesma classe de fenômeno aparece em vários rios do mundo, onde recebe o nome genérico de tidal bore, descrito em detalhe por Hubert Chanson, da Universidade de Queensland.
Para a onda nascer, quatro condições precisam se somar: uma grande amplitude de maré (vários metros entre a baixa e a preia-mar), um estuário que se estreita como um funil rio adentro, um fundo raso e uma vazão do rio relativamente baixa, que não empurre a maré de volta. Por isso ela não acontece todo dia nem em qualquer rio.
A pororoca é mais forte perto dos equinócios (março-abril e setembro), quando a amplitude das marés é maior, combinados com a sizígia (lua nova ou lua cheia), quando Sol e Lua alinham suas forças. No Maranhão, a melhor época costuma ir de março a maio.
Próximas janelas de pororoca
Cada sizígia (lua nova ou cheia) é uma janela em que a maré fica mais alta e a pororoca ganha força. As janelas em torno dos equinócios (março-abril e setembro) são as mais fortes do ano. A tabela lista as próximas luas novas e cheias, com o coeficiente e a amplitude de maré previstos para a estação de São Luís (MA), a mais próxima do rio Mearim. As linhas em destaque caem em época de equinócio.
| Lua (sizígia) | Data | Época | Coef. (São Luís) | Amplitude prevista |
|---|---|---|---|---|
| Lua nova | 14/07/2026 | Sizígia comum | 108 | 5,69 m |
| Lua cheia | 29/07/2026 | Sizígia comum | 97 | 4,95 m |
| Lua nova | 12/08/2026 | Sizígia comum | 110 | 5,78 m |
| Lua cheia | 28/08/2026 | Sizígia comum | 103 | 5,32 m |
| Lua nova | 11/09/2026 | Equinócio (mais forte) | 109 | 5,70 m |
| Lua cheia | 26/09/2026 | Equinócio (mais forte) | 107 | 5,57 m |
| Lua nova | 10/10/2026 | Sizígia comum | 104 | 5,42 m |
| Lua cheia | 26/10/2026 | Sizígia comum | 109 | 5,71 m |
| Lua nova | 09/11/2026 | Sizígia comum | 101 | 5,19 m |
| Lua cheia | 24/11/2026 | Sizígia comum | 108 | 5,67 m |
| Lua nova | 08/12/2026 | Sizígia comum | 95 | 4,81 m |
Datas das luas novas e cheias calculadas com as fases reais da Lua. O coeficiente e a amplitude são a previsão de maré da estação de São Luís no dia do pico (sizígia mais o atraso da maré local), como referência regional da força da maré perto do Mearim; a onda em si depende também da forma do rio e da vazão no dia. A pororoca chega ao ponto do rio horas depois da preia-mar no litoral.
Onde ver hoje
O mapa da pororoca no Brasil mudou nas últimas décadas. Estes são os pontos com atividade conhecida entre 2024 e 2026:
Rio Mearim, em Arari (MA)
É hoje a principal pororoca ativa e surfável do Brasil. O turismo local está em expansão e a onda voltou aos holofotes do surfe: Gabriel Medina surfou o Mearim em novembro de 2024, e o CBSurf realizou uma etapa em Arari entre maio e junho de 2025. A melhor época vai de março a maio, nas luas novas e cheias.
São Domingos do Capim (PA)
No encontro dos rios Guamá e Capim, a cidade sedia o Festival Internacional da Pororoca desde o final dos anos 1990. A 23ª edição aconteceu em abril de 2026, com expectativa de cerca de 30 mil visitantes.
Rio Araguari (AP)
Já foi a pororoca mais famosa do país, mas a onda clássica praticamente desapareceu por volta de 2013 a 2015. A causa foi uma soma de fatores: três hidrelétricas no rio (Coaracy Nunes, de 1975; Ferreira Gomes, de 2014; e Cachoeira Caldeirão, de 2016), a criação de búfalos que ajudou a desmoronar as margens e o assoreamento da foz. Em abril de 2025, o fenômeno reapareceu de forma parcial por um novo caminho, o canal do Uricurituba, confirmado por imagens do ICMBio (reportagens do Portal Amazônia em 16 de abril de 2025 e da Mongabay em 2022). Não há avaliação de que essa onda tenha a força da pororoca histórica do Araguari.
A física: número de Froude, ondular ou rebentante
O que decide a cara da onda é o número de Froude, Fr = U / raiz(g · d), onde U é a velocidade da frente, g a gravidade e d a profundidade da água. Ele compara a velocidade da onda com a velocidade com que uma perturbação se espalha na água daquela profundidade.
- Pororoca ondular: a frente é suave e vem seguida de um trem de ondas onduladas. Acontece com Froude mais baixo.
- Pororoca rebentante: a frente é turbulenta, com um rolo de espuma que quebra continuamente. Acontece com Froude mais alto.
O limiar exato entre as duas formas varia na literatura. Uma faixa citada é de Froude por volta de 1,3 a 1,8: abaixo de cerca de 1,8 a onda tende a ser ondular e acima disso, rebentante (Docherty e Chanson, 2010, citados em Pelinovsky e colaboradores, 2016). Um critério alternativo usa a razão entre a altura da frente e a profundidade, H/h em torno de 1,5 (Stoker, 1957).
A primeira medição científica de uma pororoca
A primeira medição científica de uma pororoca no mundo foi feita no Brasil, no rio Mearim (MA), por Björn Kjerfve e Hertz Ferreira, publicada em 1993 (Kjerfve e Ferreira, "Tidal bores: First ever measurements", Ciência e Cultura, 45(2)). Em 30 de janeiro de 1991, eles registraram uma profundidade de 1,8 m e uma frente de onda de 2,7 m de altura. Isso dá uma razão H/h de 1,5, uma onda de tipo intermediário entre a ondular e a rebentante.
Surf e recordes: a correção que quase ninguém faz
Surfar uma pororoca é surfar uma onda que não quebra e não acaba: em vez de durar segundos, a corrida pode durar minutos e cobrir quilômetros. Isso rendeu recordes históricos a surfistas brasileiros, mas é comum a imprensa brasileira ainda tratá-los como recordistas atuais, o que já não é verdade. Vale a correção, com o devido respeito a essas marcas:
- O recorde mundial vigente do Guinness para a maior corrida de surfe numa onda de rio ("longest surfing ride on a river bore") é de James Cotton (Austrália), com 17,2 km no rio Kampar (Indonésia), em 2016.
- Brasileiros já foram recordistas: Serginho Laus surfou 10,1 km em 2005 e 11,8 km em 2009, este último numa pororoca. Picuruta Salazar tem a marca informal de cerca de 12,5 km, em 2003, não homologada.
Ou seja: os brasileiros têm um lugar de honra na história do surfe de pororoca, mas o recorde oficial homologado hoje não é de um rio brasileiro.
Segurança
A pororoca é bonita de longe e perigosa de perto. A frente de água tem força para virar barcos, arrastar pessoas e derrubar margens. Se você vai ver ou surfar:
- Vá com quem conhece o rio e o horário exato da onda naquele trecho.
- Não confie no horário da tábua de maré da costa: a onda chega ao ponto do rio horas depois da preia-mar no litoral, e esse atraso muda de rio para rio.
- Fique longe das margens no momento da passagem, porque elas podem ceder.
- Respeite a orientação da defesa civil e das autoridades locais.
Veja também a calculadora científica de maré, o calendário lunar (para as próximas luas novas e cheias) e a tábua de maré por cidade.
Referências
- Hubert Chanson, "Tidal Bores": staff.civil.uq.edu.au/h.chanson/tid_bore.html (Universidade de Queensland).
- Kjerfve, B. e Ferreira, H. (1993). "Tidal bores: First ever measurements". Ciência e Cultura, 45(2).
- Pelinovsky, E. e colaboradores (2016), sobre a dinâmica de tidal bores (com a citação de Docherty e Chanson, 2010).
- Mongabay (2022), sobre o desaparecimento da pororoca do rio Araguari.
- Portal Amazônia (16 de abril de 2025), sobre o reaparecimento parcial da pororoca no Araguari pelo canal do Uricurituba.
- Guinness World Records, "Longest surfing ride on a river bore".
- Prefeitura de São Domingos do Capim (PA), Festival Internacional da Pororoca.